• Fernando Rodrigues

Ai que lindo esse papo de adoção, tipo a Angelina e o Brad fizeram né?


Na semana passada, dois leitores do blog e do nosso perfil no instagram se comunicaram conosco trazendo pontos e questionamentos sobre o tema da adoção. Um dos comentários soou mais tenso, enquanto o outro foi fofo e entusiasmado. E quer saber? Os dois me deixaram igualmente mega empolgado, pois permeiam de maneiras diferentes o propósito e os objetivos dessa página e dos nossos perfis nas redes sociais: Informar, gerar diálogo, esclarecer dúvidas e celebrar a diversidade das famílias. Beleza Fernando, mas do que os dois leitores falavam? A leitora que foi mais áspera no início falou exatamente o que ouvimos de muita gente (depois eu e ela fomos conversando e a tensão baixou um pouco. Vocês podem ver o diálogo nos comentários do Insta). A leitora quase que repetiu o título do último texto que escrevi aqui. Parece até que combinamos eu e ela, mas não foi nada de caso pensado não! Essa inquisição acontece com bastante frequência, vem de inúmeras pessoas e exatamente sobre ela já falei um pouco no último post, então vamos focar no tema do leitor que se mostrou interessado no processo de adoção e que também trouxe à tona uma dúvida frequente: Que lindo adotar, quero! Por onde eu começo?

Passo a passo básico para o processo.

Saiba: Tem muito mais cabeça a ser trabalhada do que burocracia a ser resolvida!


Uma pesquisa simples no oráculo da modernidade, conhecido também como Google, traz muita coisa técnica e pencas de passo a passos didáticos sobre o processo de adoção no Brasil. Gostei muito dessa listinha aqui, além de simples, tem uma introdução bacana sobre o cenário no nosso País. Com tanta informação assim disponível o que eu posso contar que agregue um pouco de vivência real para essas listas? Há toda uma aura de bondade, altruísmo e aprovação social no ato de adotar, não é mesmo? Acho ótimo que isso exista, mas se uma pessoa for movida só por essas razões então precisa rever seus conceitos. Isso dito, faço aqui minhas considerações com dois pontos de preparação para a adoção considerando minha vivência como pessoa habilitada a adotar desde 2015.


1- Já se fez a pergunta fundamental? Qual a principal questão que move você a querer adotar?


Essa questão é lançada o tempo todo por agentes envolvidos durante o processo de habilitação para a adoção. É importante se questionar antes mesmo de começar o trâmite burocrático. As assistentes sociais e psicólogas envolvidas na habilitação mencionam uma enxurrada de casos em que as pessoas respondem a essa pergunta e acabam descobrindo que estão buscando algo que a adoção não vai trazer ou pelo menos não deveria ter esse propósito. Tem gente que relata estar se habilitando e querendo adotar para aplacar a solidão, porque acha lindo, porque quer amenizar o luto de um filho perdido. Tem casais que até dizem que querem adotar porque “não aguentam mais ir em festa de criança e as pessoas perguntarem quando eles vão ter filhos”. Doidera, né? Mas é real! A resposta para esse questionamento é bem simples: Eu quero adotar porque quero ser pai/mãe/pãe! Esse é o princípio mister de onde tudo deve partir. Então se faça essa pergunta antes de dar o primeiro passo oficial que é buscar a vara de infância e juventude da sua região.


2- Qual a origem das crianças para adoção? É possível saber o histórico detalhado delas?


Essas duas perguntas foram respondidas pelos profissionais da Vara da Infância e Juventude de forma avassaladora para a maioria dos presentes durante a primeira reunião que participei para meu processo de habilitação. “A origem varia muito...” Disse uma das assistentes sociais. “Mas esqueçam a cena que habita o imaginário popular de uma criança em um cestinho abandonada na porta de alguma casa”. Ela continuou! A cada detalhe que a responsável pelo encontro ia soltando sobre o cenário de fragilidade social das crianças para adoção no Brasil, sentia que mais e mais presentes iam se desiludindo e desconstruindo o romantismo e idealismo que cerca o ato de adotar. Cada estado brasileiro tem uma realidade social diferente, mas a maioria das crianças têm uma origem comum e nada romântica: Filhos do craque, filhos de população de rua, filhos de profissionais do sexo, filhos da fome que são entregues porque com a família biológica eles podem “não vingar”. Um soco no estômago, não é mesmo? Muita gente revirava os olhos ao ouvir tudo isso, mas é preciso saber! Pode até soar desestimulador para muita gente, mas não gostaria que fosse encarado dessa forma. Lembro que dos (mais ou menos) 80 participantes que começaram o processo comigo, uns 10% conclui a habilitação. É que a cada etapa vencida ou você aprende que não está preparado, que de repente estava ali pelas razões erradas ou você reforça sua crença de que nada disso é empecilho para que você realize seu sonho de parentalidade, já que a adoção é para muitas pessoas a única alternativa viável.


Esses dois pontos de reflexão podem mesmo desestimular as pessoas a buscar o processo de adoção? Talvez as que estejam buscando isso por razões não genuínas, sim. Foi fácil ouvir as pontuações das assistentes sociais sobre as bagagens físicas e emocionais que filhos adotivos podem trazer consigo? Claro que não foi! Mas a cada encontro para esclarecimentos, promovido pelos grupos de adoção, eu ia renovando minha vontade de ser pai. Ia vendo a concretização da velha máxima de que “o amor transforma”. Nesses encontros, famílias lindas vinham dar seus depoimentos, falavam sobre as dificuldades iniciais, problemas gerais com que seus filhinhos chegaram e costumavam encerrar suas apresentações mostrando orgulhosos seus tesouros, seus núcleos familiares reais formados graças à adoção. Essas cenas povoavam minha cabeça a cada momento em que pensava em desistir. Ninguém está livre de enfrentar desafios e dificuldades com filhos biológicos, porque estaria com filhos adotivos? A adoção é sim um ato lindo de amor e acredito piamente que para toda entrega na vida é preciso dedicação e força de vontade. Só assim somos habilitados, e não falo do trâmite legal, a transformar realidades nem sempre iguais as fotos glamorosas da linda família Brangelina.

Brangelina. Doriana ou nem?

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