• Fernando Rodrigues

Filhos são o Demo das carreiras? Mas se não os temos, como sabê-los?

Atualizado: 27 de Ago de 2019

Um vez participei de um curso desses de desenvolvimento pessoal, isso tem uns 14 anos já. Esse treinamento era liderado por uma consultoria contratada para mexer com os brios de um jovem grupo de trainees e fazer com que explorassem seus anseios, seus sonhos e que principalmente divulgassem seus objetivos e projetos com mais afinco, fossem eles pessoais ou profissionais. A mensagem era clara: Quanto mais a gente divulga e promove um sonho, mais pessoas são inspiradas e automaticamente adicionadas como sócias desse desejo e voluntariamente passam a querer ajudar na realização. Eu adotei essa máxima pra vida e olha, tem dado muito certo. Prefiro acreditar que tem sempre mais gente torcendo do que gongando. Com o sonho de ser pai não foi diferente. Desde que comecei a falar cada vez mais detalhadamente sobre isso, as coisas foram se conectando, o universo conspirando. Até hoje tem gente que me procura dizendo que não sei lá onde no interior da Bahia tem um bebê pra mim, ou gente que diz que se ofereceria, se não tivéssemos a Su, para ser nossa barriga no lugar dela. Depois da gravidez então, surgiu em exército de interassad@s dando todo tipo de dica! E nós amamos muito tudo isso, ok!? Tem sido um universo tremendo de coisas novas e impensadas. A cabeça anda a mil tentando catar tudo, colocar num liquidificador e misturar como num milk-shake caseiro que você toma e pronto: Já sabe ser pai!

Hoje estamos adentrando a 34° semana de gestação e os dias até aqui têm sido como viver cercado de um constante recital do Poema enjoadinho de Vinicius de Moraes. Lembram dessa obra de Vinicius? O título desse meu texto é uma corruptela extraída do famoso poema. Minha mãe sempre o repetia em voz alta, horas quando estava cansada horas quando se sentia realizada. Agora então que nosso sonho está próximo, aumenta exponencialmente também o coro de "Sua vida vai mudar muito". Isso pra citar os comentários comedidos. Tem umas histórias que ouvimos que só não assustam mais porque logo após ouvir a mensagem-chave de que "os filhos vão acabar com sua vida", as pessoas dão uma risadinha e soltam um: "Mas tudo vai fazer sentido quando você ver seu filho sorrindo".


De vez em quando, fico levemente impressionado com alguns papos e vejo claramente como fica mais complexa a gestão de uma carreira executiva para quem tem filhos pequenos (principalmente as mulheres). Contudo, há anos trabalho com executivas que são mães e tenho sido rodeado de exemplos bem sucedidos e que me inspiram fortemente. Mesmo notando que o desafio aumenta isso não me desanima sabe? Tem algo dentro de mim que me diz que muito em breve serei eu mais uma dessas pessoas a dizer corajosamente: "Tudo vai valer a pena quando você ver seu filho sorrindo".


O direito a licença paternidade: Dúvidas e fantasmas!


Muita gente me pergunta como vai ser quando nosso filho nascer, já que sabe que minha vida profissional é bem corrida, com longas jornadas e cheia de viagens. Algumas se surpreendem quando digo que vou tirar licença paternidade. Outras se animam com a evolução das coisas e logo emendam com a curiosidade sobre o tempo e a legalidade da licença para um Pai como eu. Pois vamos lá: Existem diferentes situações hipotéticas que podem acontecer com casais homoafetivos que tem filhos. Aqui tem tudo mastigadinho sobre as diferentes composições.



No meu caso, somos um casal composto de dois homens que vão ter um filho por meio de barriga solidária. A justiça prevê direito a licença para homens que tenham bebês lactentes e sem uma mãe. Para aqueles que adotam o direito é o mesmo. No nosso caso, somente um dos pais têm direito a licença remunerada, o mesmo procedimento dos casais hétero no Brasil. Pela CLT são 120 dias, ou 4 meses, mas algumas empresas oferecem mais 60 dias. Meu trabalho atual me ofereceu a licença estendida, num ato inédito para a empresa no Brasil. Recentemente um casal homoafetivo, com dois pais, ganhou destaque na mídia com um caso muito parecido com o nosso.


O dia em que soube da licença eu fiquei radiante por conta de uma única razão: Foi uma validação simbólica, ainda que respaldada juridicamente, da minha família em formação. Uma sinalização de novos tempos onde a diversidade dos modelos familiares é encarada como deveria ser: uma pluralidade existente e que, como todas as outras, merece respeito e apoio.


Claro que tem sempre alguém que, sem rodeios, solta alguma preocupação supostamente coletiva do tipo: "Mas você não tem medo dessa pausa prejudicar sua carreira" ou "Será que seu emprego ainda vai estar quando você voltar"? Quando ouvia esses comentários nas primeiras vezes, eu fazia uma longa pausa e na hora não respondia nada além de um "pois é" ou vez ou outra eu sussurrava um "pois agora" que nós manezinhos da ilha costumamos soltar como quem diz - isso nem me passou pela cabeça, sabia? - Mas a partir daquele momento começou a passar. Foi tipo quando você está em algum e-commerce, não conclui a compra e partir dali o produto surge o tempo todo em qualquer lugar que você vá na internet!


Foi a mesma sensação quando saí do armário no trabalho e alguém me perguntou se eu não temia que a "revelação" iria me prejudicar profissionalmente. Já reparou como tem gente preocupada com sua carreira? Gente que você nem imaginava que ligava para a sua própria vida profissional, imagina para a dos outros. Bem, quando me fizeram essa pergunta anos atrás sobre sexualidade, eu refleti uns minutos e respondi algo que também trato de levar comigo aonde quer que eu vá trabalhar, ciente claro dos meus privilégios e de como o preconceito ainda existe: Eu acredito que se a minha orientação sexual se tornou algo maior que minhas competências profissionais é porque há dois possíveis cenários: 1- Eu me tornei um profissional medíocre ou 2- A empresa não é pra mim! Até hoje só vivi, uma única vez, o cenário 2 e espero que continue assim. Eu amo o que faço e vejo a chegada de um filho não só de forma romântica. Eu escuto por hora muito sobre as dificuldades, ainda não as vivo, só ouço falar. Ao mesmo tempo, acho que essa sensação de completude que me invade quando fecho os olhos e me imagino segurando meu filho no colo vai ser um novo gás, uma injeção de criatividade, de ânimo e de humanidade. Trabalhamos com pessoas e desconheço maneira mais brutal e eficiente de aprender a lidar melhor com gente do que ter que cuidar de uma pessoinha. Eu escolhi me agarrar ao otimismo, o pessimismo já tem um fã-clube enorme! Obviamente sem bancar a pícara sonhadora. Certeza que muita coisa muda em 6 meses numa empresa, mas eu também espero mudar pra melhor com a paternidade. No trabalho tem muita coisa que não dá pra controlar, apesar de tentarmos o tempo todo estabelecer prazos, entregas ou medir resultados que nos dão a sensação de estar no controle. Acredito que um filho chega para exercitar o lado oposto disso: Nem tudo vamos ser capazes de controlar mais. Seja a saúde, sejam os gostos pessoais. Abrir mão do controle, dizem, pode ser também muito libertador e transformador.


Filhos não são o Demo, Vinicius! Mas vou tê-los só para poder falar com mais propriedade =)



Desafios são desafios =)





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