• Fernando Rodrigues

Ai Gabi, só quem viveu sabe!

Quando Lior veio ao mundo, há onze dias, pude confirmar com veemência aquela velha máxima que diz: Nasce um filho, nasce um pai! Nada no mundo te prepara para esse momento e olha que eu ensaiei, treinei e vislumbrei a cena dele vindo para o meu colo. Pensei umas mil vezes que música tocaria na minha cabeça no instante que o visse, fantasiei o cheirinho dele, pensei no possível desmaio que teria ao assistir o parto e até no que me disseram sobre a gente querer contar os dedos do neném para ver se ele nasceu com todos assim que bate o olho nele pela primeira vez. Bem, toda essa profusão de possíveis acontecimentos e pensamentos sumiu quando entregaram meu filho no meu colo! Já seguraram um baby soluçando? No caso aqui quem soluçava era eu mesmo, não o baby. Não façam!

Eu fiquei chacoalhando Lior de tanto que eu me debulhava em lágrimas e acabei saindo com os olhos esbugalhados em todas as fotos desse momento sublime. Como diz o novo meme da moda nas redes sociais: Ai Gabi, só quem viveu sabe!


Lior nasceu dia 20/06 às 11:04, mas e os pais nasceram quando? Arrisco dizer que foi no momento que o seguramos pela primeira vez. Daí em diante tudo foi acontecendo quase que de forma instintiva. A adrenalina durou uns três dias: Banho, mamadeira, fralda, umbigo. Parecia que eu já tinha feito aquilo tudo por anos e era como se ele tivesse estado conosco desde sempre também. Freud explica? Talvez! Até paciência extra surgiu para lidar com burocracia e trâmites especiais que orbitam um bebê filho de um casal homoafetivo por meio de barriga solidária. E isso nunca foi meu forte, mas tenho aprendido a domar meu ímpeto. Dizem que as mães são como leoas para defender a cria. Como pai, senti-me assim também nas poucas vezes que percebi algum lapso de má vontade ou desinformação em relação ao nosso modelo familiar. Resolvi encarar os percalços com parcimônia. Tento ver como uma nova missão e gostaria de dividir com vocês alguns temas que vivemos nesses primeiros dias:



Baby Lior é o anjinho da tia Su!

1- Na maternidade: Ficamos com uma ótima impressão. Não éramos o primeiro casal homoafetivo a passar por ali, apesar de termos sido um dos primeiros com dois homens e uma barriga solidária. Os profissionais com que lidamos foram sempre generosos, curiosos sem maldade e ficaram tocados com nossa história. Na hora de preenchermos o “Nascido Vivo” (Documento principal para o registro da criança) foi o único instante que eu senti que eles ficaram com dúvidas, mas ainda assim foram cuidadosos e respeitosos. Eu disse a eles que sabia que o Nascido Vivo saia com o nome da nossa amiga e barriga solidária. Eles pensaram que ficaríamos chateados com isso. Expliquei que é o único documento que sai com o nome da Su e que normal que conte como um parto para ela no seu histórico de saúde. No mais, sempre se dirigiam a mim para todas as responsabilidades com o bebê. Como a maioria das pessoas, elogiavam e celebravam bastante a Su!




Vovó Guacira dando mamadeira para Lior e Pedro Paulo empolgadão com o primo.

2- Amamentação: Essa dúvida surge com frequência no nosso perfil do Instagram: O aconselhamento da psicóloga que acompanhou nosso caso era claro: A barriga solidária não deve amamentar. A partir do nascimento, o vínculo passa ser construído com os pais e Su (que não é a doadora do óvulo) se torna titia amada do nosso baby. Não cabe aqui entrar na discussão leite materno versus fórmula. Chegamos a olhar banco de leite, mas o fato é: Leite materno é com certeza melhor! Temos essa opção sendo um casal de dois homens? Não! Logo, fórmula desde a primeira mamada. Ah é uma sangria desatada? Também não. As fórmulas hoje em dia são excelentes. Cada bebê reage de uma forma. Lior aprendeu a mamar na mamadeira rapidinho e até agora nem cólica teve.


3- Plano de saúde: Aqui mora uma primeira dificuldade. No nosso caso, os gastos com o parto foram bancados por nós, mas até o momento o Bradesco Saúde me negou os reembolsos. Mesmo após explicar a situação. Analisaram e foram enfáticos: A barriga solidária não é sua dependente, logo você não tem direito ao reembolso. Estamos conversando com um advogado, não encontrei casos parecidos na internet. Pode ser que nossa situação gere um aprendizado e que algum outro casal possa se beneficiar disso no futuro.


4- Registro do bebê: Ocorreu tudo bem! Como esperávamos. Claro que sempre demora um pouco mais, rola uma conferência mais precisa dos documentos, consultas a funcionários mais sênior do cartório e por aí vai. A menina que me atendeu por exemplo ficou sem saber o que fazer quando eu disse que meu filho era fruto de um processo de barriga solidária. Ao final, depois de algumas ligações, conseguimos seguir com o registro. Fui bem preparado com a lista de documentos que se precisa num caso como esse. Além dos papéis que se pedem a um casal hétero (documentos dos pais e comprovante de residência) o casal homoafetivo que tenha gerado um filho por meio de fertilização in vitro, barriga solidária ou não, precisa da cópia do contrato de barriga solidária (nosso caso) ou de uma declaração da clínica onde foi feito o tratamento. Depois de uns quarenta minutos a certidão do nosso filho ficou pronta e nela consta filiação com o nome dos dois pais. Não há campo Pai e Mãe. Lior Rodrigues Bonjardim tem uma certidão coisa mais linda desse mundo. Quando me despedi da moça que nos atendeu ela me pediu desculpa pela memória e disse que fomos o primeiro caso. Respondi que era uma oportunidade de aprendizado para todo mundo e que agora eles já saberiam como lidar, pois com certeza não seremos os últimos.



5- Teste do pezinho: Já com a certidão em mãos, fomos a um postinho de saúde perto da casa da minha mãe e lá encontramos um pouquinho de dificuldade. Pouco a ver com os funcionários, mas com modelos e formulários de preenchimento automático que tem como campo obrigatório de preenchimento o nome da mãe. Contamos toda a história para duas pessoas que nos atenderam e uma delas chegou a me dizer que precisava do nome da mãe por causa de genética. Pediram pelo cartão de saúde da mãe também. Tivemos que insistir e discutir bastante até que a coordenadora do posto ligou no laboratório que processa o teste do pezinho e eles a orientaram como seria o procedimento: Preencher o nome de um dos pais no campo que dizia mãe. Teste feito. Deixamos o mesmo recado: "..Esperamos que vocês tenham aprendido conosco, pois fomos os primeiros, mas não seremos os últimos."


Fernandinha e Bi trouxeram o amiguinho Benjamim para conhecer Lior. Amamos essa família linda!

Em todas as etapas que passamos após o nascimento do nosso filho, tivemos ajuda e aconselhamento de um casal de amigas lésbicas que teve bebê um mês antes de nós. Fer e Bi, fica aqui nosso agradecimento. É importante demais ter com quem dividir nuances tão próprias dos nossos processos de homoparentalidade. Esperamos que as dicas e conteúdos produzidos aqui no blog representem para nossos leitores o que essa dupla de mamães lindas nos ensinou e que muitas vezes foram aprendidas na raça.








Lior e sua família agradecem o tsunami de amor que temos recebido diariamente.

Obrigado de coração.

@ferciccone

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